Venom: Tempo de Carnificina é a prova perfeita de que nem sempre grandes nomes realizam grandes filmes. A nova produção da Sony Pictures, dirigida por Andy Serkis – conhecido por seu papel como Gollum na trilogia de O Senhor dos Anéis –, soa como uma grande decepção para os espectadores.
Picotado para caber em seus 90 minutos, o filme desperdiça seus potenciais elementos de conexão com o público nos primeiros 15 minutos iniciais, onde vemos um vislumbre do desenvolvimento da relação entre Eddie Brock (Tom Hardy) e Venom, que inicialmente parecem formar uma dupla divertida e sincronizada. No entanto, essa qualidade é rapidamente destruída com a chegada de uma nova trama repleta de tédio e clichês cinematográficos. Não se pode culpar apenas o diretor por essa galhofa que é Venom 2. Desde o primeiro filme de 2019, estava claro que esta não seria a franquia que honraria os fãs do anti-herói, um fato mais do que evidente durante os 90 minutos de filme.
Pensado como uma comédia romântica de super-heróis, o novo filme da franquia constantemente testa seus limites, seja descaracterizando seu protagonista ou inserindo piadas de mau gosto sem medo de julgamentos. O que mais assusta nessa história toda é que o grande público realmente vai comprar e transformar isso em um estrondoso sucesso. Se você está procurando um filme complexo ou, no mínimo, decente sobre a profundidade do personagem, este não é o filme para você. Em Tempo de Carnificina, fica claro que tanto o elenco quanto a produção estavam apenas se divertindo enquanto rodavam o longa. Seja pela excelente e leve atuação de Tom Hardy, que provavelmente é o ator que mais se diverte dentro do filme, seja pela loucura não explorada de Cletus Kasady (Woody Harrelson), que interpreta um dos vilões mais aleatórios da história do cinema, mas que ainda assim cativa pela excelente atuação do ator.
Na trama, Kasady quer viver seu romance com Shriek (Naomie Harris), sua namorada maluca que acaba sendo transferida de um hospício por absolutamente nenhum motivo. No meio dessa história de amor, o vilão conhece Eddie Brock e pede para que ele escreva uma matéria sobre sua vida. Como recompensa, de livre e espontânea vontade, Kasady vai entregar detalhes sobre seus crimes cometidos. Após esses eventos, Kasady desenvolve um ódio mortal e não explicado por Eddie e, após se infectar com seu sangue, decide matar o jornalista por motivos desconhecidos até então. Ainda no meio da trama, Venom e Eddie não conseguem mais conviver no mesmo corpo sem entrar em conflito sobre seus métodos de vigilância e protagonizam algumas das cenas mais ridículas dos quadrinhos nas telonas.
Momentos absurdos, como um Venom bêbado em uma balada fazendo um discurso mega estruturado sobre liberdade de expressão e gênero, são jogados na tela sem construção ou o mínimo de sentido, contribuindo para um grande teste de paciência necessário para engolir o filme. Mas ainda assim, a sequência do sucesso de 2019 encontra seu caminho e público para o que parece ser uma nova fórmula de sucesso dentro da indústria, que é retomar a clássica narrativa estruturada nos filmes de super-heróis do início do século XXI. Aqui, prepare-se para ter vislumbres de momentos absurdos, assim como aconteceu com Elektra (2005) e Mulher-Gato (2004).
Dentre seus inúmeros problemas, também vale ressaltar os péssimos efeitos especiais e suas quase inexistentes cenas de ação. Se em Godzilla vs Kong (2021) temos uma trama inchada e desmotivada, ainda assim podemos tirar algo divertido de suas ótimas cenas de ação, que são um dos poucos pontos positivos do filme. Já em Tempo de Carnificina, temos apenas uma cena de ação grandiosa, que não consegue entreter e muito menos representar os elementos apresentados na tela, seja pela edição que faz inúmeros cortes por segundo para tentar explorar o visual dos personagens em todos os ângulos possíveis, inclusive os mais cômicos e absurdos, seja pelos efeitos de borracha que não transparecem realidade, mesmo nas mãos de um diretor que iniciou sua carreira revolucionando a captura de movimentos. Ainda assim, o filme traz conexões interessantes com o próprio MCU, que serão pauta de discussão até a chegada do tão aguardado Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa.
O problema do novo filme do Venom não está em sua proposta despojada e jovial, mas sim na infecção que esse tipo de filme pode causar para um gênero que, até então, tenta se manter de pé com base nos grandes acertos produzidos nos últimos anos. Filmes como Pantera Negra e Aves de Rapina chegaram às telonas para provar que pautas importantes também servem de base para que os novos blockbusters não apenas entretenham, mas também levem os espectadores a pensarem sobre assuntos que são tratados como tabu na sociedade. Seja com o preconceito racial ou o machismo em relação às mulheres. E não entenda mal, ninguém aqui está pedindo para que este filme seja uma carta aberta de apoio a todas as pautas sociais, mas que o mesmo tenha o mínimo de consciência em relação ao próprio gênero que lhe deu existência.