Que Michael Jordan foi muito mais do que apenas um ícone do esporte americano, já estamos cansados de saber. E, mesmo que você não conheça sua carreira, provavelmente já teve algum contato indireto com a figura de um dos maiores astros da NBA e da cultura pop dos anos 90 — seja por meio de sua famosa linha de tênis com a Nike ou até mesmo por sua participação no excelente Space Jam.
Jordan foi a cara de uma geração que soube criar figuras verdadeiramente icônicas, como Michael Jackson, Madonna, George Michael e Elton John. E, em The Last Dance (Arremesso Final, no Brasil), fica evidente o quanto a atual geração carece de uma figura tão onipresente quanto Michael Jordan foi em seu auge.
O documentário de dez episódios aborda a carreira de Jordan desde seus primeiros passos no basquete até sua última temporada pelo Chicago Bulls, culminando em sua histórica despedida da equipe. Ao longo dessa jornada, acompanhamos como Jordan e seus companheiros ajudaram a transformar um time em uma dinastia, conquistando seis campeonatos em uma liga repleta de astros.
Mais importante do que isso, porém, é perceber que, assim como em uma equipe de basquete, a coletividade é fundamental para a construção dessa história. Talvez The Last Dance seja também uma representação de como nós, como seres humanos, escrevemos nossa própria história enquanto fazemos parte de algo muito maior.
Isso não precisa necessariamente estar relacionado à fé — embora seja possível fazer essa associação. A verdadeira mensagem do documentário está na construção de uma trajetória baseada em persistência, foco, suor e, acima de tudo, paixão.
Dividido em dez partes e contado de maneira não linear, o documentário consegue construir tensão com enorme eficiência, criando uma narrativa quase heroica em torno de seus personagens principais. E o plural aqui é importante porque, apesar de Jordan ser naturalmente o centro de tudo, diversos outros jogadores foram fundamentais para a construção de The Last Dance.
Scottie Pippen, por exemplo, surge inicialmente como uma espécie de grande coadjuvante da carreira de Michael Jordan. Porém, em meio a polêmicas, treinos, disputas contratuais e conflitos internos, consegue construir sua própria narrativa e se tornar um personagem praticamente tão importante quanto o protagonista.
Dennis Rodman também ocupa esse espaço, mas de maneira completamente diferente. Talvez seja um dos personagens mais carismáticos e genuínos de toda a produção. Sua vida foi tão surreal que os episódios dedicados a ele poderiam facilmente dar origem a uma série própria sobre fama, excessos, rebeldia e tudo aquilo que existia ao redor de sua personalidade.
Phil Jackson, treinador do Chicago Bulls, também desempenha papel fundamental na narrativa, dividindo os holofotes com os inúmeros rivais de Jordan durante os anos 80 e 90. O documentário ainda conta com participações de figuras como Barack Obama, Bill Murray, Leonardo DiCaprio e o eterno Kobe Bryant.
Ainda assim, The Last Dance nunca perde de vista seu protagonista. A produção consegue apresentar Michael Jordan por diferentes ângulos, mostrando suas falhas, acertos, vitórias, obsessões e motivações. Jordan é o instrumento fundamental dessa sinfonia e representa o equilíbrio perfeito entre maestro e melodia.
Assistir a The Last Dance é, acima de tudo, embarcar em uma verdadeira viagem no tempo. E essa jornada não envolve apenas o esporte, mas toda a onda cultural que aquelas pessoas ajudaram a movimentar durante os anos 90.
Afinal, a forma como o Chicago Bulls jogava durante sua era de ouro não era apenas esporte: era praticamente arte. Uma máquina que não tinha medo de deixar suas engrenagens à mostra.
E mesmo que você não entenda absolutamente nada de basquete, isso pouco importa. O documentário consegue explicar elementos fundamentais do esporte sem recorrer constantemente a termos técnicos capazes de afastar quem nunca acompanhou uma partida. O mais importante aqui é a narrativa, as pessoas e os bastidores por trás de uma das maiores histórias do esporte.
Existe até uma consequência curiosa nisso tudo: ao final dos dez episódios, é difícil não sentir vontade de começar a acompanhar basquete ou, pelo menos, pesquisar mais sobre aquele período. Existe uma sensação quase nostálgica por uma época que muitos espectadores sequer viveram — e que, infelizmente, não voltará.
Ao fim de tudo, impressiona perceber como Michael Jordan continua relevante para a cultura pop mesmo décadas depois de seu auge. Seja através de marcas, filmes, documentários ou do próprio basquete, sua imagem ultrapassou os limites do esporte.
The Last Dance apresentou essa história para uma geração que não teve a oportunidade de acompanhar Jordan em quadra e permitiu que milhões de pessoas entendessem por que seu nome continua tão presente quando se fala nos maiores jogadores da história do basquete.
The Last Dance é uma verdadeira injeção de adrenalina e aprendizado. Uma produção que facilmente figura entre os grandes documentários esportivos dos últimos anos e que prova como um assunto aparentemente restrito a um nicho pode falar sobre muito mais do que aquilo que acontece dentro de uma quadra.
É sobre basquete, claro. Mas também é sobre obsessão, amizade, rivalidade, ego, trabalho, talento, sacrifício e legado.
E talvez seja justamente por isso que funcione tão bem: você não precisa amar basquete para entender por que Michael Jordan e aquele Chicago Bulls significaram tanto para uma geração.