Após os eventos de Os Vingadores, a Marvel decidiu dividir seu universo em fases. A primeira — composta por Homem de Ferro, O Incrível Hulk, Homem de Ferro 2, Thor, Capitão América: O Primeiro Vingador e Os Vingadores — apresentaria os personagens. A segunda se constituiria em mostrar seus dramas e toda a consequência psicológica dos eventos de Os Vingadores. Em tese, a ideia é boa, porém todos os personagens (exceto Tony Stark) estariam entrando na segunda fase do estúdio com suas continuações, enquanto aqui já se encerrava a trilogia do Homem de Ferro. Infelizmente, o estúdio não conseguiu fazer isso de forma digna.
Dirigidos por Jon Favreau, os dois primeiros longas do herói traziam a estética cotidiana da Marvel: uma história simples que focava em reforçar seu personagem, agradar aos fãs com suas referências e, acima de tudo, entregar roteiros bem trabalhados. Aqui, notamos uma certa urgência do estúdio em fazer uma continuação que desse dinheiro, e assim surge Homem de Ferro 3. Após conflitos nos bastidores, Jon Favreau decidiu deixar a direção da trilogia do novo ícone da cultura pop. Com isso, Robert Downey Jr. indicou o diretor Shane Black, conhecido pelo gênero buddy cop (filmes policiais voltados ao humor e ao companheirismo). Black aceitou a proposta do estúdio e decidiu trazer um pouco da sua assinatura para dentro do filme. A decisão pode parecer boa na teoria, já que o diretor escreveu o excelente Máquina Mortífera (1987), porém sua visão estaria completamente deslocada da proposta que a Marvel apresentou aos espectadores em seus filmes anteriores.
Black não é um péssimo diretor, porém seu estilo megalomaníaco e descompromissado fez com que Homem de Ferro 3 fosse rejeitado tanto pelos fãs quanto pela crítica. Diferente de Favreau, o diretor decide focar pouco na problemática de Tony Stark, explorando apenas sua personalidade fútil. O sucesso do personagem veio pela junção do ego inflado com seu questionamento interno sobre seu papel como vigilante da América; aqui, o diretor decide colocar Tony Stark como alguém viciado em criar armaduras, mas que não as desfruta. Poucas são as cenas em que reconhecemos o personagem que de fato curtia estar vestindo uma superarmadura e sair voando. Em troca, temos um Tony Stark que se diminui e prefere não se empenhar em resolver seus problemas.
Por outro lado, essas escolhas trazem algumas cenas interessantes, como o fato de Tony Stark ter que enfrentar seus problemas sem sua armadura. Aqui, percebemos que ele não é um personagem que vai para a mão sem preparo; ele usa seu cérebro constantemente para criar ferramentas e situações que vão ajudá-lo a sair dos perigos, e temos um pequeno vislumbre do personagem apresentado anteriormente. Outro destaque é a trilha sonora de Brian Tyler, que traz uma energia nova e recicla o tema da clássica animação do herói de forma genial.
Robert Downey Jr. mais uma vez domina esse personagem. O ator consegue trazer vida mesmo com péssimos diálogos escritos; ele consegue trazer um charme e uma tristeza evidente para o seu papel e prova mais uma vez que sua presença foi uma das principais causas do sucesso do estúdio. Por outro lado, o filme também peca na descaracterização de personagens clássicos como o Mandarim, interpretado por Ben Kingsley e Guy Pearce. Mesmo levando a proposta do personagem como uma releitura, o erro também consiste na arte de contar uma história cinematográfica que tenha coesão e mantenha o espectador dentro do filme constantemente.
O elenco aqui funciona. Ben Kingsley impõe um personagem assustador e imponente, porém peca quando o roteiro exige que piadas fora de contexto sejam inseridas em seu texto. Guy Pearce também convence, mas com um personagem tão antipático e com uma motivação rasa, é impressionante que o ator tenha conseguido não torná-lo algo detestável. A adição de Rebecca Hall é uma das coisas mais irritantes do filme. A atriz, que nunca conseguiu entregar uma atuação decente em sua carreira, entra e sai de cena para não trazer propósito à história ou trazer vida à personagem; sua atuação é inadmissível e mostra o quanto a atriz precisa voltar para a escola de atuação.
Homem de Ferro 3 mostra que o personagem, por mais popular que seja, só funciona sob a supervisão de alguém que realmente tenha algo para contar, e essa foi uma das lições mais importantes para o estúdio. O filme também provou que bilheteria nunca vai significar qualidade, já que somou 1,3 bilhão de dólares mundialmente. Por fim, a trilogia do Homem de Ferro se encerrava de forma deplorável e deixava o primeiro gosto amargo na boca dos fãs.