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Nota Lâmpada Nerd
CRÍTICA

Era Uma Vez Em… Hollywood (2019)

Novo filme de Quentin Tarantino subverte e emociona!

DireçãoQuentin Tarantino

Posso encontrar inúmeras palavras para os filmes de Quentin Tarantino, porém “tocante” nunca foi uma delas. Aqui, o diretor mostra seu lado mais humano em Era Uma Vez em… Hollywood, o 9º filme de sua carreira (que aparentemente acabará em seu 10º filme) e, talvez, um dos mais pessoais do cineasta — isso, lógico, se você, assim como Tarantino, for um fã assíduo da Sétima Arte.

Acima de tudo, Era Uma Vez em… Hollywood é muito diferente de um filme “convencional” (se é que podemos aplicar o termo “convencional” a Quentin Tarantino) na carreira do diretor. Ao mesmo tempo que possui uma identidade forte e única, o longa também traz as marcas registradas de Tarantino: desde diálogos cativantes, elencos impecáveis e trilha sonora perfeitamente encaixada, até muita violência e uma história não muito linear. Mas aqui, além de subverter seu próprio vício cinematográfico, o diretor mostra, pela primeira vez, sua vulnerabilidade e sensibilidade ao tratar de assuntos mais pesados. Não que ele não tenha feito isso antes, como no satisfatório Bastardos Inglórios, mas aqui a sensibilidade toma conta da câmera e, com um amor visível pela arte exposta em tela, fica difícil não se emocionar com os dez últimos minutos do filme. Por mais que sejam recheados de violência e palavrões, Tarantino consegue extrair da desgraça uma pequena flor de esperança e satisfação.

Como muitos sabem, o filme aborda a história do assassinato de Sharon Tate, uma atriz que estava em ascensão nos anos 60, mas que foi brutalmente morta pelos capangas de Charles Manson. Aqueles que conhecem a história sabem o peso e a dramaticidade que um filme precisaria ter para relatar os fatos ocorridos. Tarantino não falha e, assim como em Django Livre ou Bastardos Inglórios, altera os fatos de forma nada gratuita, aquecendo o coração e os olhos de seu espectador fiel.

Outro acerto do diretor foi a excelente escolha de elenco. Enquanto Leonardo DiCaprio entrega uma de suas melhores atuações, Brad Pitt consegue ofuscar o brilho do astro, roubando os holofotes para si. O ator, que recentemente havia sumido das telonas, retorna em grande estilo, mostrando que a idade não o abalou. Com isso, Tarantino cria uma analogia interessante com a própria carreira: o diretor, que já está há muitos anos na indústria, passa por um momento completamente novo na história do cinema — o dilema de fazer ótimos filmes, com uma idade um pouco mais avançada, para uma geração que não necessariamente está interessada no conteúdo, mas sim no resultado. Essa analogia é carregada na escalação de Pitt para o papel de Cliff Booth, enquanto a subversão de expectativas do herói glorioso que DiCaprio geralmente costuma interpretar é elevada à potência máxima. Por mais que seu personagem (Rick Dalton) seja uma pessoa extremamente complicada e até um pouco difícil de lidar, o trio consegue criar um ambiente tão autêntico onde até os momentos mais questionáveis dos personagens são transformados em atos de heroísmo despretensiosos.

Ainda assim, Tarantino consegue envolver sua obra em uma de suas melhores trilhas sonoras, junto com toques de realidade que o diretor nunca havia executado em tela. Aqui, Margot Robbie (Sharon Tate) pode até ser a musa visual da obra, mas isso não a transforma na patricinha perfeita e sem carisma. Tratando-se de um tema delicado, Tarantino cria uma bela homenagem à falecida atriz, tornando-a mais humana do que nunca, e isso com poucas falas. O mais importante, e talvez o grande protagonista da arte de Tarantino aqui, seja a sua câmera, que, além de representar de forma exuberante a sensibilidade transparecida na tela, cria um ambiente de amizade e nostalgia de coisas que você pode nem mesmo ter vivido, mas que de alguma forma te tocam por dentro.

Era Uma Vez em… Hollywood é uma das obras mais completas, sensíveis e belas de Quentin Tarantino. Não vá ao cinema esperando uma obra semelhante a qualquer coisa que o diretor já tenha feito. E, por mais que você possa não conhecer a história de Sharon Tate, você com certeza vai sair do cinema tendo a plena certeza de que assistiu a uma completa e bela obra de arte. Viva Tarantino!

Danilo Bertozzo
AUTOR

Danilo Bertozzo

Falo sobre cultura pop nas redes sociais e sou considerado o "prego" dos filmes na minha bolha. Santista, Jornalista, Fã do Batman, criador do Lâmpada Nerd e Designer Gráfico.