A Forma da Água (The Shape of Water), novo filme de Guillermo del Toro, chegou encantando a todos. Com sua estética bizarra e sua narrativa familiar, o diretor conseguiu conciliar um conto de fadas envolto em importantes contextos sociais, e o resultado não poderia ser diferente.
Em termos técnicos, o diretor não falha. Guillermo usa e abusa de seus conhecimentos, e aqui vemos que ele amadureceu muito desde seu último filme (A Colina Escarlate). Isso é notável desde a sua narrativa nada apressada até o foco nos pequenos detalhes, que o diretor usa para transmitir os sentimentos de sua protagonista. O desafio aqui era criar um romance interespécies — entre humana e anfíbio — que não soasse como algo fantasioso e ridículo e, nisso, o diretor encontrou a fórmula perfeita para fazer esse amor transbordar das telas. Ele também consegue misturar muitos elementos em seu filme, desde o musical até o drama e a comédia; o equilíbrio entre os gêneros é perfeito e nada soa fora de tempo, trazendo também metáforas que demoram a se entregar diante do espectador, mas que, quando decifradas, nos fazem chorar de tanta beleza.
A química entre os protagonistas é semelhante ao que James Cameron fez em Titanic (1997), assim como a determinação de seu vilão. O que mais nos impressiona aqui é a beleza com que Guillermo explora o ambiente no qual trabalha: desde as pequenas gotas d’água na janela de um ônibus até os grandes vazamentos de uma pia, podemos sentir paixão e comprometimento no que está sendo mostrado em tela.
O roteiro magnífico, escrito pelo próprio diretor, mistura elementos do clássico A Bela e a Fera. O argumento inicial e a execução de algumas cenas nos remetem aos clássicos contos dos Irmãos Grimm, porém com um toque realmente adulto e que foca em grandes causas sociais, como machismo, assédio, homossexualidade e racismo. Guillermo não aponta o dedo na cara das pessoas que, dia após dia, cometem tais atos, mas alfineta de uma forma que faz com que elas sintam nojo do que está sendo visto em tela.
Especialista em criar monstros, o diretor consegue mais uma vez surpreender com o visual de sua nova criatura. Embora seja um pouco semelhante a outros personagens da carreira do cineasta, ela possui detalhes que saltam aos olhos do espectador, evidenciando a beleza e o trabalho colocado em cima daquele ser.
A trilha sonora de Alexandre Desplat é uma das melhores coisas da trama. O compositor francês traz muitos elementos de sua terra natal, algo que combina com o espírito e a narrativa com os quais del Toro dirige sua obra. O filme também traz elementos de outras culturas, como a da brasileira Carmen Miranda, que recebe uma curta, porém bela homenagem por parte do diretor — e nós, como brasileiros, nos sentimos em casa ali.
O elenco também está espetacular. Sally Hawkins (Elisa) é a menina de ouro de del Toro aqui; a atriz tinha a difícil missão de interpretar uma personagem muda, porém cheia de complexidade e paixão por tudo o que faz, desde o seu trabalho até os momentos de interação com seu vizinho Giles, interpretado por Richard Jenkins. O ator também dá um show, transmitindo sensibilidade e assumindo o papel de uma figura paterna em conflito devido à sua homossexualidade, que era um grande tabu nos anos 50. Octavia Spencer, que interpreta Zelda, é uma das personagens mais carismáticas; a atriz traz vida e é um alívio cômico bem-vindo e nada irritante na trama. Enquanto isso, Michael Shannon (Richard) interpreta um vilão destemido e sem muitas justificativas para os seus atos: a maldade vem de dentro, e o ator consegue transmitir esse sentimento raivoso esplendorosamente bem.
Porém, o filme não é isento de problemas. No final do segundo ato, a trama fica estagnada e só volta a engrenar nos últimos 15 minutos, que se desenrolam bem, mas fogem um pouco do foco que o diretor vinha apresentando.
A Forma da Água não é o melhor filme de Guillermo del Toro, e podemos confirmar isso lembrando de sua obra máxima, O Labirinto do Fauno. Contudo, a magia na qual o diretor introduz o espectador é tão bela e sincera que faz com que seu novo longa seja, sem dúvidas, um clássico moderno.