Duna é definitivamente uma das maiores obras de ficção científica de todos os tempos. A obra de Frank Herbert não só deixou sua marca na literatura, mas também no cinema, onde nomes renomados como David Lynch (Twin Peaks) se aventuraram a adaptar um dos livros mais desafiadores para as telonas. Agora, em 2021, é a vez de Denis Villeneuve (A Chegada / Blade Runner: 2049) trazer uma nova visão para um público acostumado com o cinema blockbuster, mas ávido por mais arte cinematográfica.
Nesta nova versão, Duna mescla elementos de grandes sagas como O Senhor dos Anéis com a inventividade visual de novos clássicos da ficção científica, como Interstellar de Christopher Nolan. Esta combinação também inclui elementos da filmografia de Villeneuve, como a estética noir futurista de Blade Runner: 2049 e o clima de desolação de A Chegada, filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Em sua nova obra, o diretor realiza uma junção perfeita não só de estética, mas também de narrativa. Em Duna, o mais puro cinema é criado através das lentes de Greig Fraser, que ao lado do diretor, constrói os mais belos e grandiosos cenários épicos para o filme. Neste contexto, também temos uma excelente combinação de grandes nomes como Timothée Chalamet, Zendaya, Oscar Isaac, Rebecca Ferguson, Josh Brolin, Jason Momoa, Javier Bardem e Stellan Skarsgård, formando um dos elencos mais impressionantes dos cinemas nos últimos anos. E para coroar toda essa junção, temos ninguém menos que Hans Zimmer, que, diferente de seu último trabalho em 007 – Sem Tempo Para Morrer, compõe uma das trilhas sonoras mais marcantes não apenas de 2021, mas de toda a sua carreira.
A narrativa escolhida para a obra foca no elemento principal de sua fonte original: a criação de mundo e a construção do protagonista Paul Atreides (Chalamet), que traz a clássica jornada do herói de volta aos cinemas. É interessante notar como Villeneuve é fã da obra original, já que a jornada de Paul é representada à perfeição no longa. No entanto, para aqueles que não estão acostumados com uma direção mais lenta e contemplativa, o filme pode parecer arrastado. No entanto, isso traz um respiro para o cinema blockbuster, que nos últimos anos tem sido mais voltado para experiências divertidas. Em Duna, os elementos que fazem um blockbuster atraente estão presentes, mas de forma mais sofisticada e satisfatória para os amantes do cinema. Pode parecer o mínimo dizer que o filme tem uma fotografia de cair o queixo e uma trilha sonora que vai ficar com o espectador por dias, mas devido à grande demanda por grandes produções, esses elementos acabaram sendo deixados de lado em inúmeros filmes que levaram o público ao cinema. Ver o cinema de Villeneuve alertar e lembrar aos cineastas que grandes filmes podem fazer muito mais do que apenas entreter é mais do que satisfatório para os amantes da sétima arte.
É importante ressaltar que esta é apenas a primeira parte da adaptação do primeiro livro da saga de Herbert, o que pode causar polêmica entre os espectadores. Durante suas 2 horas e 40 minutos, Duna traz ao espectador um senso de urgência em tom de premonição e se encerra no ápice da obra original. Para alguns, isso pode parecer uma grande promessa interrompida, enquanto para outros, é a introdução perfeita para um novo universo de fantasia nos cinemas. É válido refletir que aqueles que argumentam que o filme é apenas um “coito interrompido” são contraditórios, já que grandes sagas como Harry Potter e O Senhor dos Anéis usaram o mesmo recurso não apenas para faturar mais em bilheteria, mas também para respeitar e proporcionar mais tempo aos fãs dentro do universo prometido. Duna segue essa mesma fórmula e talvez o sentimento de “é só isso?” se transforme em uma sede voraz por mais momentos dentro daquele universo.
Falando da trilha sonora de Zimmer, esta é definitivamente uma das obras que marcarão a carreira do compositor. Misturando elementos futuristas com tons de músicas cotidianas de outras culturas, como o BUZUK, frequente na cultura do Oriente Médio, é seguro dizer que esta talvez seja a trilha sonora vencedora do Oscar 2022. Assim como a fotografia do filme, que não só conversa com a trilha, mas também com a experiência cinematográfica como um todo. Seja pela música ou pelo visual, Duna não é um filme para ser assistido no celular ou na televisão. Esta é uma experiência cinematográfica que merece ser aproveitada enquanto há tempo, e de preferência, na melhor tela e som possíveis.
Por fim, é seguro afirmar que Duna talvez seja um dos, senão o melhor, filme de 2021. Seu nível de importância não só para o cinema, mas também para a retroalimentação que a obra trará para a literatura e a obra original de Frank Herbert, o torna um dos filmes de ação e ficção mais importantes dos últimos anos. É esperado que seja um forte candidato nas premiações do próximo ano e sua segunda parte, já confirmada, promete a grandiosidade de uma saga que reinventará a forma como vemos e produzimos o cinema blockbuster.